A política costuma revelar mais pelos silêncios do que pelos discursos. E, neste momento, o silêncio do vice-governador do Maranhão, Felipe Camarão, chama atenção, e levanta questionamentos inevitáveis.
Camarão construiu, ao longo dos últimos anos, uma imagem pública de guardião da moralidade política, apensar de tudo ter ido por água baixo diante dos últimos escândalos envolvendo o vice-governador, a exemplo do vazamento de conversas que envolvem a deputada Mical Damasceno. Nas redes sociais e em entrevistas, Felipe não hesita em apontar erros, criticar adversários e cobrar rigor quando o assunto envolve ética na vida pública. É um discurso que já não convence, mas agrada parte da militância e reforça sua persona de professor que ensina, corrige e repreende.
Mas a coerência, em política, costuma ser testada justamente quando os fatos envolvem aliados.
Nas últimas horas, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, decidiu anular a quebra de sigilo da lobista Roberta Luchsinger no âmbito da CPMI do INSS. A decisão foi tomada em tempo recorde e pode abrir caminho para questionamentos semelhantes envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O debate jurídico é legítimo. Decisões judiciais são passíveis de análise, interpretação e até discordância. O problema não está na existência da decisão, mas na postura de quem costuma cobrar explicações públicas sempre que investigações atingem determinados campos da política, e agora opta pelo silêncio absoluto.
Onde está a voz crítica do vice-governador?
Se a decisão partisse de um ministro identificado com a direita, dificilmente Camarão deixaria o assunto passar em branco. Muito provavelmente haveria postagens inflamadas, questionamentos sobre transparência e discursos em defesa das instituições. Mas, quando a decisão vem de um aliado político histórico, a indignação parece desaparecer.
É nesse ponto que surge a pergunta inevitável: a régua moral vale para todos ou apenas para os adversários?
A política brasileira já conviveu demais com discursos seletivos de moralidade. Aqueles que apontam o dedo para os outros, mas recolhem a mão quando o episódio envolve aliados ou figuras próximas. É justamente esse comportamento que alimenta a desconfiança da sociedade em relação à classe política.
Felipe Camarão, que gosta de se apresentar como defensor da ética e da coerência, tem agora a oportunidade de demonstrar que seus princípios não dependem de conveniência política.
Porque, no fim das contas, quem se coloca como pregador da moral pública precisa aceitar viver sob a mesma cobrança que costuma impor aos outros.
E, neste caso específico, o silêncio fala alto demais.
